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Noite só


Por mais que eu quisesse que tudo fosse diferente não posso negar o fato: em noites frias e solitárias eu me apercebo de que não consegui tirar você da minha cabeça. Parecia uma questão de tempo, mas não é tão simples.

Em um lindo oceano, corais vermelhos e azuis, num pequeno barco só você e eu. Sinto seu cheiro, e seu toque, mas tudo acaba quando acordo.

Tentei de todo jeito deixar o isso para trás, afinal, já me acostumei com a idéia de não ter você por perto... mas não dá! Cada pedaço de mim contém uma memória de você.

Quando ouço teu respirar meu mundo dá voltas, mas tua sombra não repousa junto à minha, eu acordo, era só a brisa do mar. Trabalho, e estou em paz durante o dia... mas quando chega o momento de repouso, então eu sinto seu toque, sua respiração junto à minha. E outra vez meu mundo fica de ponta-cabeça.

Tenho seus dedos como que tocando minha pele, sua imagem gravada no no meu peito, cauterizada. Os meus lábios ainda queimam sentindo saudade dos seus. És algo contra o qual eu não posso lutar.

Mas resides apenas em meus sonhos, não é nada que eu possa evitar.

Veja as músicas ocultas aqui e aqui.

Obs.: Com excessão dessa linha e da formatação, todo esse post foi redigido no software "Dasher" em apoio ao projeto.

Noite Quente em Budapeste


Ainda em Keleti, procurava abrigo para a noite seguinte nos murais da estação, embora fosse cedo e o clima estivesse bem quente, pois era dia 16 de julho. Com poucas opções em seu idioma, foi almoçar num modesto restaurante ali perto. Achando com quem pudesse conversar, embora a compreensão não fosse a ideal, soube de uma mulher que cuidava do estádio de esportes e, vez por outra, abrigava alguns estrangeiros por uns trocados. Foram apresentados, e aparentemente ela era uma corredora profissional, ou maratonista, algo do tipo.


Para levantar uma grana, ela sugeriu que ele tocasse bandolim num grupo local que se apresentaria naquela mesma noite, porque um dos membros da banda havia sido mordido na mão por um cão. Ele topou e foram ensaiar no ginásio. Não podia conter sua admiração ao vê-la correr na pista oval enquanto ensaiavam, a tarde quente o fazia transpirar. Embora não entendendo uma palvra do que era cantado, tocava razoavelmente sem perder o ritmo.


À noite, enquanto tocavam, ela servia drinks e parava corações. Vestida apenas de uma camiseta, shorts e pele, a mera sugestão de seus músculos levava os homens a perder o show. Ouvia-se cochichos pelas paredes quando ela passava, era impossível não notá-la! Aquela noite quente e alegre jamais será esquecida, com certeza!

Mas nada rolou entre os dois, após aquela noite alegre que rendeu o dinheiro da hospedagem, ele partiu no trem da tarde, meio sem rumo, mas com outra dama em mente. Um objetivo grande, um obstáculo ainda maior!

Veja a música oculta aqui
(na foto: zsuzsanna ripli)

Casual


Baldeação do trem é sempre um tédio. Mas numa noite linda de lua quarto-crescente, parece bem mais convidativo. Ele se recosta no parapeito do terceiro andar de um café, e observa a lua por entre umas poucas nuvens logo acima dos prédios. A iluminação no café parece um tanto remota naquele parapeito, e a luz mais forte é a que vem de cima do prédio. No andar debaixo, cuja varanda se estenda uns dois metros mais próximo à rua, uma moça debruçada sobra o parapeito chama a atenção pelo volume de sua bagagem aos seus pés.

Alguns segundos foram perdidos observando a moça do andar debaixo, que estava bem à vontade olhando pra frente. Ele nem notou quando a lua se escondeu por entre as nuvens. Após o fim do espetáculo lunar, a moça passou a observar as pessoas na praça à frente do café. Dois passinhos para a esquerda e a sombra dele estava oculta sob a dela. Certamente ela notou, mas para não dar pontinhos para o dono da sobra ela se recusou a olhar para trás e continuou vendo as pessoas na praça.

Ah, ele não resistiu! Pôs-se a fazer movimentos engraçados com os braços, de modo que na sombra parecessem os dela. Penteava o cabelo, batia continência, mandava beijos... mas quando ele fez que tocava guitarra ela não se conteve e soltou um riso. Vitória! Ela olha para cima afim de ver quem é o doido, e ele se dá conta de algo "Por que eu comecei com isso? Pirei!"

A reação dela foi de espanto, havia algo de incomum no rapaz do andar de cima, mas a luz que lhe ofuscava não favorecia uma análise. Mas de algo não restou duvida, ele tinha senso de humor. Viu ele fazer um sinal pedindo que o esperasse ali, e passou a pensar se dava uma chance para o rapaz. Podia ser um tolo oportunista qualquer, ou um bom rapaz com senso de humor e criatividade. Como saber? Mas será que valia a pena esperar pra ver? Já está cansada de caras assim em sua vida. Mas como muitas mulheres, a jovem pensou demais e não teve tempo de agir, quando se deu conta o topete do rapaz já figurava desvencilhando-se das pessoas no interior do café com sua bagagem em mãos.

Pisou no pé de duas senhoras, e parou para pedir desculpas, mas atravessou o café arfando, com um objetivo à sua frente. Ao descer os degraus atá o andar debaixo não pensava em outra coisa, senão em como seria o rosto da jovem de cabelos longos envolta na escuridão que havia no parapeito. Ao adentrar o salão e visualizá-la novamente de frente à praça suas mãos suavam ainda mais. Não que já não tivesse abordado moças desconhecidas antes, mas tudo era novidade outra vez.

Decidida a não decidir mais nada, as pessoas na rua não eram capazes de distraí-la do que ela sabia se aproximar aos poucos, sem fazer som notável, a sobra do rapaz desconhecido mais uma vez se juntava à dela, mas desta vez na mesma proporção. Era o momento, ela se virou, mas não foram os olhos do rapaz que lhe cativaram a atenção no primeiro olhar...

Acompanhando aqueles lindos cabelos, veio um olhar muito complexo em sua direção. Na verdade ele não se ateve muito ao olhar, depois de notar um rosto familiar e aquela manchinha no decote, não teve duvidas: era com ela que ele iria pegar o trem da meia-noite!

Veja a música oculta aqui

Crianças Únicas


Havia um rapaz, que ainda bem jovem, esteve envolvido em um acidente de carro. Seus pais, nos bancos dianteiros do carro não se feriram, tampouco ele próprio saíra machucado. Mas o rapaz que antes tinha seus cabelos abundantes e negros, agora tinha todos os fios de sua cabeça brancos como a neve!

Quando seus colegas de escola perguntavam-lhe por que o cabelo dele agora era branco ele dizia "Eu não sei, acho que foi a batida forte do carro que fez ficar assim".

Na mesma escola estudava uma garotinha magra e bonita. Após as aulas de educação física ela nunca se trocava perante as outras meninas e ninguém sabia o porque. Depois de muita insistência, todas suas amigas ficaram espantadas ao ver seu corpo repleto de marcas de nascença.

Ela não sabia explicar aquilo, quando lhe perguntavam por que havia tantas marcas ela dizia: "Eu não sei, elas sempre estiveram onde estão".

Certa manhã estava o menino com seus pais na igreja. Ele não gostava de lá, e se sentia muito incomodado quando seus pais dançavam e rolavam no chão. A menina da escola também não entendia esse comportamento na igreja e ambos ficavam reclusos.

Ela lhe perguntou por que os pais dele estavam a rolar no chão, ao que ele disse: "Eu não sei nós sempre viemos aqui".

Veja a música oculta aqui

Comunicação vs Tecnologia

Acho que todo mundo já recebeu pelo menos uma vez um e-mail que diz: "vc sabe que vive no século XXI quando..." - eu já recebi um quintilhão de vezes - mas é inegável a realidade por trás daquelas linhas. Quem nunca usou o celular do portão de casa pra falar com alguém lá dentro, ou usou o telefone pra falar com a vizinha, ou com o cara do outro lado do escritório?
Falo agora por minha própria experiência... converso com meus amigos mais próximos, por telefone, Twitter e MSN muito mais do que pessoalmente, a proporção chega a ser absurda! Estão aí meus amigos Finão e Coca que não me deixam mentir.

A nossa geração digital está desenvolvendo uma forma de comunicação própria, e nos entendemos muito bem, obrigada!, mas nossos pais e tios da geração passada com certeza diriam que eram mais felizes e que tinham formas de comunicação mais saudáveis! (os daqui de casa não cansam de dizer isso). Apesar de sermos capazes de refutar esse tipo de argumento facilmente eles não deixam de ter uma certa razão.
O entendimento é seriamente comprometido em formas de comunicação indireta. 80% das informações em e-mails dão margem para interpretação incorreta, e qualquer pessoa que tenha uma conta de e-mail sabe que o disse-me-disse na internet tem dado origem a aterradoras teorias de conspiração, que em parte são causadas por babacas que não tem nada o que fazer, mas também vem de pessoas ingênuas que acreditam em tudo que leem e repassam da forma que entendem.

Lá vai uma pequena histórinha que ilustra o que pode causar a falta de comunicação pessoal:

PRIMEIRA SITUAÇÃO
o casal está sentado na sala
- Amor, dá pra você sair meia hora mais cedo amanhã e pegar a Nina na escola pra mim?
- Poxa, querida... queria adiantar o trabalho pra aquela apresentação do cliente de terça, ia ficar até mais tarde no escritório.
- É que tenho que ir numa reunião beneficente no Clube de mães (aqui acrescenta-se uma carinha de gatinho do Shrek), é importante, elas estão contando comigo.
- Ok, trago a apresentação pra montar em casa

SEGUNDA SITUAÇÃO
o casal ao telefone
- Amor, dá pra você sair meia hora mais cedo e pegar a Nina na escola pra mim?
- Você sabe que eu queria adiantar o trabalho pra aquela apresentação do cliente de terça, ia ficar até mais tarde no escritório.
- É que tenho que ir numa reunião beneficente no Clube de mães, é importante, elas estão contando comigo.
- Ok, levo a apresentação pra montar em casa, mas vê se não demora lá einh!

TERCEIRA SITUAÇÃO
ele recebe um torpedo
- Amor, dá pra vc sair + cedo e pegar a Nina na escola pra mim?
ele responde
- Vc sabe que eu n posso!
- Tenho uma reunião importante, tão contando cmgo!
- Meu tblho n é important? Eu vo, ms esteja em casa as 20h!

QUARTA SITUAÇÃO
a secretária entra na sala
- Sua mulher mandou avisar que é pra o senhor pegar a Nina na escola que ela tem uma reunião no clube.
- O que? ela enlouqueceu? Preciso preparar uma apresentação, ela sabe disso (ele colou um post-it na geladeira ontem) e vai me atrapalhar por causa de uma reuniãozinha social naquele clube inútil?
o divórcio saiu três meses depois


KARAOKÊ

Na vida real os karaokês, videokês e sei-lá-okês só têm música brega. Mas, isso é uma crônica, e crônicas não necessariamente devem reproduzir a vida literalmente. No meu mundo ideal, os karaokês, videokês e sei-lá-okês têm músicas novas, que quase ninguém conhece, uma lista quase infinita de músicas e atualizações praticamente diárias. Sim, eu viajei.

Mas a história é sobre dois amigos. Amigos de berço, tão unidos que há quem pense que são irmãos e outros, bom, outros dizem que não passam dum casal mal-avisado que não enxerga a vida real e não vêem que são mais que amigos. Cresceram juntos, estudaram juntos, viajavam juntos. E, um dia, sabe-se lá porque cargas d'água resolveram cantar jutos.

Não que eles nunca tivessem cantado juntos, faziam isso sempre. Mas, geralmete, era quando estavam sonolentos na praia, com aquela brisa fresca que faz com que relaxemos até a alma, sozinhos e na frente de casa, esperando alguém chegar com a chave (os dois avoados sempre esqueciam a chave). Mas dessa vez, cantaram juntos no karaokê, na frente de desconhecidos.

Enfim, cantaram. Afinados, um dueto lindo. Não perguntem a música, faz muito tempo, nem me lembro. Mas cantaram belamente, ela com sua voz aguda - meu Deus, chega a incomodar - e ele, com a voz doce, mas grave. Cantaram como se não tivesse ninguém no recinto, dançando da maneira que lhes vinha em mente. Estavam felizes, dois tímidos que agora podiam cantar no karaokê.

Daí então resolveram fazer isso mais vezes. Perderam por todo a timidez, começaram a sair com outras pessoas, começaram a formar grupos distintos: ela andava com patricinhas em geral e ele com os metaleiros - tão colegial isso, meu Deus, mas eles não enxergaram. Seis meses depois do episódio do karaokê mal se viam e se falavam. Nem se conheciam mais.

E passou-se um ano. Um ano inteiro nessa situação, mas sempre se citavam em conversas, sentiam falta um do outro, mas não conseguiam se reaproximar. Mania do ser humano de criar barreiras para não se aproximar do que sente falta, por puro medo. Enfim, um ano. Mas, num belo domingo à noite, se encontraram. Num bar-karaokê (porque domingo é noite de 'programa-família'). E tocou a dita música, a que fez com que mudassem. Aí, vocês vão advinhar o final: cantaram juntos, voltaram com a amizade, casaram-se e viveram felizes para sempre! - acertamos?

Hmm, não. Erraram: não cantaram, apenas cantarolaram em seus lugares enquanto ouviam um casal desafinado assassinar a pobre música. Trocaram meia dúzia de olhares, um ou dois sorrisos, e assim ficou.

Mas aí... bom, aí que eles tinham amigos em comum que juntaram as mesas e os dois começaram a conversar. E colocaram assuntos em dia, lembraram-se dos bons tempos e esqueceram porque não eram mais companhia um pro outro. Agiam novamente como melhores amigos. Incrivelmente, daquela noite em diante, voltaram a andar juntos, como irmãos novamente. 

Pra resumir a história, algum tempo depois ela casou aos 24 com um amigo dele e ele aos 25, com uma moça que conhecera numa de suas viagens à praia. Ela tem uma menina e ele, um menino. São vizinhos, cantam em duetos ainda e toda sexta-feira se juntam pra comer pizza. Diz a lenda que nunca mais cantaram a infeliz música que os separou, mas o karaokê continua sendo o lugar preferido dos dois, seja pra cantar, seja pra assistir. Porque aquela noite mudou suas vidas e seus futuros, mas ainda assim, eles se agradavam de lembrar e imaginar o que teria acontecido se não tivessem perdido a timidez.